quinta-feira, 15 de junho de 2017

Hermes no meu coração e "In Her Shoes"


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Uma das coisas que mais me encantam no tentar deslindar as artes de Hermes/Mercúrio - e, claro, nunca conseguir - é essa questão do salto entre o que o emissor emite e o que o receptor recebe. Existe uma pirueta aí no meio, um vazio de significado que faz com que a gente só receba aquilo que está preparada para receber. É fácil entender isso se a gente pensar no daltonismo, por exemplo: o daltônico não está "preparado" para receber todo o espectro de cores. O que ele vê está errado? É mentira? Claro que não. É o que ele percebe, a sua decodificação do que há em volta e que a gente chama, por falta de outro termo melhor, de real. A mesma coisa com sons que a gente (o ouvido humano) não é capaz de perceber, e nem por isso são menos concretos para cães ou outros animais.
Comento isso para falar de um filme que vi de novo por estes dias. Vi de novo, vi pela primeira vez: era outra eu que viu o filme antes, sem prestar muita atenção. Desta, chorei tanto que tive que ir lavar o rosto. Chorei de soluçar.
O filme se chama "Em seu lugar" (In Her Shoes) e talvez seja descrito como uma comédia (ou uma "comédia dramática", o que quer que seja isso). Conta a história de duas irmãs (Cameron Diaz e Toni Colette) muito diferentes, que perderam a mãe cedo e não sabem que têm uma avó viva. Uma, toda certinha, advogada, contida; outra, festeira, porra-louca, bagunçada, armadora. Esta segunda acaba descobrindo que a avó existe e vai visitá-la, em um desses condomínios para idosos em lugar de clima ameno que existem nos EUA. Aí ela descobre seu talento para lidar com idosos, e essa parte do filme é uma das delicadezas. Um dos idosos, um professor de literatura cego, pede que ela leia poesia para ele, e descobre que ela tem dificuldades de leitura: aquela prática vira um hábito dos dois, uma troca. Ele recebe as palavras ("poesia é feita para se ler devagar", diz ele, incentivando-a), ela recebe aulas informais e afetivas. 
É um filme sobre ausências, faltas, erros, compensações, recuperações, perdão: esqueci de dizer que quem interpreta a avó é a Shirley MacLaine, tão maravilhosa, tão ruiva, tão ela. Um filme leve, um filme delicado, um filme sem grandes pretensões mas que tocou  tão fundo na Renata daquele dia. Um filme sobre amor de irmãs, um tema que sempre mexe comigo.
E, no final, a irmã séria-mas-nem-tanto se casa, e o presente da outra irmã, na cerimônia, é a leitura de um poema do e.e.cummings (aqui, o poema e uma tradução de que gostei):


5 comentários:

  1. Ana Paula Medeiros16 de junho de 2017 20:30

    Eu gostei tanto, tanto desse filme, quando vi. Obrigada por ter lembrado dele e trazido de novo, com mais leituras, mais percepções, mais memórias.

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  2. Esse filme é muito bom de ver.

    E esse poema...

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  3. ah que lindeza! já aconteceu isso comigo também, rever e sentir outras coisas. O mesmo vale para livros.

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  4. que delicadeza seu texto. deu até vontade de ler em voz alta

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